quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Boas e más razões para acreditar





Boas e más razões para acreditar

 

Richard Dawkins
(Carta para sua filha Juliet)





Querida Juliet,

Agora que você fez dez anos, quero lhe escrever sobre algo que é muito importante para mim. Você já se perguntou sobre como sabemos as coisas que sabemos? Como sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem pequenos pontos no céu, são na verdade grandes bolas de fogo como o Sol e ficam muito longe? E como sabemos que a Terra é uma bola menor, girando ao redor de uma dessas estrelas, o Sol?

A resposta para essas perguntas é “provas”. Às vezes “prova” significa realmente ver (ou ouvir, ou sentir, cheirar…) que algo é verdade. Astronautas viajaram longe o suficiente da Terra para ver com seus próprios olhos que ela é redonda. Às vezes nossos olhos precisam de ajuda. A “estrela-d’alva” parece uma sutil cintilação no céu, mas com um telescópio você pode ver que ela é uma linda bola — o planeta que chamamos de Vênus. Uma coisa que você aprende diretamente vendo (ou ouvindo, ou cheirando…) é chamada de observação.

Frequentemente, a prova não é só uma observação por si só, mas há sempre observações em sua base. Se aconteceu um assassinato, é comum ninguém (menos o assassino e a pessoa morta!) ter visto o que aconteceu. Mas os detetives juntam diversas observações que podem apontar na direção de um suspeito. Se as impressões digitais de uma pessoa coincidirem com as encontradas num punhal, isso é uma prova de que ela tocou nele. Isso não prova que ela cometeu o assassinato, mas pode ser uma informação útil, junto com outras provas. Às vezes um detetive consegue pensar sobre várias observações e então de repente perceber que todas se encaixam e fazem sentido se fulano de tal cometeu o crime.

Os cientistas — os especialistas em descobrir o que é verdade sobre o mundo e o universo — frequentemente trabalham como detetives. Eles dão um palpite (chamado de hipótese) sobre o que talvez seja verdade. Depois dizem para si mesmos: “Se isso realmente for verdade, devemos observar tal coisa”. Isso é chamado de previsão. Por exemplo, se o mundo realmente for redondo, podemos prever que um viajante que caminhar continuamente numa mesma direção acabará no ponto de onde partiu. Quando um médico diz que você está com sarampo, ele não olhou para você e viu sarampo. A sua primeira observação lhe fornece a hipótese de que você talvez tenha sarampo. Então ele diz para si mesmo: se ela realmente está com sarampo, devo encontrar… E ele então consulta sua lista de previsões e testa-as usando seus olhos (você está com pintas?), mãos (sua testa está quente?) e ouvidos (seu peito está com um chiado?). Só então ele toma a decisão e diz: “Meu diagnóstico é que essa criança está com sarampo”. Às vezes, os médicos precisam fazer outros testes, como exames de sangue ou raios-X, que ajudam seus olhos, mãos e ouvidos a fazer observações.

O modo como os cientistas usam provas para aprender sobre o mundo é muito mais engenhoso e complicado do que consigo dizer numa breve carta. Mas agora quero deixar de lado as provas, que são uma boa razão para crer em algo, e alertá-la sobre três más razões para acreditar em algo. Elas se chamam “tradição”, “autoridade” e “revelação”.

Primeiro, a tradição. Alguns meses atrás, fui à televisão para ter uma conversa com cerca de cinquenta crianças. Essas crianças foram convidadas por terem sido criadas segundo diferentes religiões: algumas como cristãs, outras judias, mulçumanas, hindus ou sikhs. Um homem com um microfone ia de criança em criança, perguntando no que acreditavam. O que elas responderam mostra exatamente o que quero dizer com “tradição”. Suas crenças não tinham nenhuma relação com provas. Elas simplesmente papagaiavam as crenças de seus pais e avós que, por sua vez, também não eram baseadas em provas. Elas diziam coisas como: “Nós, hindus, acreditamos em tal e tal”; “Nós, muçulmanos, acreditamos nisso e naquilo”; “Nós, cristãos, acreditamos numa outra coisa”.

Como todas acreditavam em coisas diferentes, nem todas poderiam estar certas. O homem com o microfone parecia achar que isso não era um problema, e nem tentou fazê-las discutir suas diferenças entre si. Mas não é isso que quero enfatizar no momento. Eu simplesmente quero analisar de onde vieram as crenças. Vieram da tradição. Tradição significa crenças passadas do avô para o pai, deste para o filho, e assim por diante. Ou por meio de livros passados através das gerações ao longo dos séculos. Crenças populares frequentemente começam de quase nada; talvez alguém simplesmente as invente, como as histórias sobre Thor e Zeus. Mas depois de terem sido transmitidas por alguns séculos, o simples fato de serem tão antigas as faz parecer especiais. As pessoas acreditam em coisas simplesmente porque outras pessoas acreditaram nessas mesmas coisas ao longo dos séculos. Isso é tradição.

O problema com a tradição é que, independentemente de há quanto tempo a história tenha sido inventada, ela continua exatamente tão verdadeira ou falsa quanto a história original. Se você inventar uma história que não seja verdadeira, transmiti-la através de vários séculos não vai torná-la verdadeira!

A maioria das pessoas na Inglaterra foi batizada pela Igreja anglicana, mas esse é apenas um entre muitos ramos da religião cristã. Há outras divisões, como a ortodoxa russa, a católica romana e as metodistas. Todas acreditam em coisas diferentes. A religião judaica e a mulçumana são um pouco diferentes; e há ainda diferentes tipos de judeus e mulçumanos. Pessoas que acreditam em coisas um pouco diferentes umas das outras vão à guerra por causa discordâncias. Então você talvez imagine que eles têm boas razões — provas — para acreditar naquilo que acreditam. Mas, na realidade, suas diferentes crenças são inteiramente decorrentes de tradições.

Vamos falar sobre uma tradição em particular. Católicos romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão especial que ela não morreu, mas acendeu ao Céu. Outras tradições cristãs discordam, e dizem que Maria morreu como qualquer pessoa. Outras religiões não falam muito nela e, de modo diferente dos católicos romanos, não a chamam de “Rainha do Céu”. A tradição segundo a qual o corpo e Maria foi levado ao Céu não é muito antiga. A Bíblia não diz nada sobre como ou quando ela nasceu; aliás, a pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo foi levado ao Céu não foi inventada até cerca de seis séculos após a época de Jesus. No início, só foi inventada, da mesma forma que qualquer história, como “Branca de Neve”. Mas, no transcorrer dos séculos, ela se tornou uma tradição e as pessoas começaram a levá-la a sério simplesmente porque a história havia sido transmitida ao longo de tantas gerações. Quanto mais velha a tradição se tornava, mais as pessoas a levavam a sério. Ela foi por fim escrita como uma crença católica romana oficial muito recentemente, em 1950, quando eu tinha a idade que você tem hoje. Mas a história não era mais verdadeira em 1950 do que quando foi inventada, seiscentos anos após a morte de Maria.

Vou voltar à tradição no fim de minha carta, e olhá-la de outro modo. Mas antes preciso tratar das outras duas más razões para crer em alguma coisa: autoridade e revelação.

Autoridade enquanto razão para crer em algo significa acreditar porque alguém importante ordenou que você acreditasse. Na Igreja católica romana, o papa é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele deve estar certo só porque ele é o papa. Num dos ramos da religião muçulmana, as pessoas importantes são velhos barbados chamados de aiatolás. Muitos muçulmanos se dispõem a cometer assassinatos simplesmente porque aiatolás de um país distante deram essa ordem.

Quando digo que só em 1950 os católicos romanos foram finalmente informados que tinham que acreditar que o corpo de Maria havia subido para o Céu, quero dizer que em 1950 o papa disse que isso era verdade, e então tinha que ser verdade! É claro que algumas coisas que o papa disse ao longo de sua vida devem ser verdade e outras não. Não há nenhuma boa razão para você acreditar em tudo que ele diz mais do que você haveria de acreditar nas coisas que muitas outras pessoas dizem, só porque ele é o papa. O papa atual ordenou às pessoas que não controlasse o número de filhos que vão ter. Se sua autoridade for seguida com a obediência que ele deseja, os resultados poderão ser uma terrível escassez de alimentos, doenças e guerras, causadas por superpopulação.

É claro que, mesmo na ciência, às vezes nós mesmos não vemos as provas e temos de acreditar no que foi dito por outra pessoa. Eu não vi, com os meus próprios olhos, que a luz viaja à velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Mas acredito em livros que me dizem qual é a velocidade da luz. Isso parece “autoridade”. Mas na realidade é muito melhor que autoridade, porque as pessoas que escreveram o livro viram as provas, e qualquer um de nós pode examinar as provas com atenção no momento que quiser. Isso é muito confortante. Mas nem mesmo os padres afirmam que há provas para a história de que o corpo de Maria subiu para o Céu.

A terceira má razão para acreditar em algo é “revelação”. Se você tivesse perguntado ao papa, em 1950, como ele sabia que o corpo de Maria tinha subido ao Céu, ele provavelmente teria dito que isso lhe fora revelado. Ele se fechou num quarto e rezou, pedindo orientação. Sozinho, ele pensou e pensou, e na sua intimidade teve mais e mais certeza de suas ideias. Quando pessoas religiosas têm uma simples sensação de que algo deve ser verdade, mesmo que não haja provas de que o seja, eles chamam sua sensação de “revelação”. Não só os papas afirmam ter revelações. Isso também acontece com muitas pessoas religiosas. É uma de suas principais razões para acreditar naquilo que acreditam. Mas isso é bom ou ruim?

Suponha que eu lhe dissesse que seu cachorro está morto. Você provavelmente ficaria muito triste, e talvez dissesse: “Você tem certeza? Como você sabe? Como aconteceu?”. Suponha então que eu respondesse: “Na verdade, eu não sei se Pepe está morto. Eu não tenho provas. Só tenho uma sensação esquisita, bem dentro de mim, de que ele está morto”. Você ficaria muito zangada comigo por tê-la assustado, porque você sabe que uma “sensação” por si só não é uma boa razão para acreditar que um cachorro está morto. Você precisa de provas. Todos temos sensações e pressentimentos de tempos em tempos, e descobrimos que às vezes estavam certos, às vezes não. De qualquer forma, pessoas diferentes podem ter sensações opostas, então como decidir quem teve a intuição correta? O único jeito de ter certeza de que um cachorro está morto é vê-lo morto, ou ouvir que seu coração parou de bater, ou obter essa informação de uma pessoa que viu ou ouviu alguma prova de que ele está morto.

As pessoas às vezes dizem que devemos acreditar em sensações íntimas, senão você nunca teria certeza de coisas como “Minha esposa me ama”. Mas esse é um argumento ruim. Pode haver muitas provas de que alguém ama você. Durante todo o dia em que você está com alguém que a ama, você vê e ouve pequenas provas, e elas se somam. Não é somente uma sensação interior, como a sensação que os padres chamam de revelação. Há outras coisas para apoiar a intuição: olhares, um tom carinhoso de voz, pequenos favores e gentilezas; tudo isso serve de prova.

Certas pessoas têm forte sensação de que alguém as ama sem que isso esteja baseado em provas, e então é provável que estejam completamente enganadas. Há pessoas com uma forte intuição de que um astro do cinema está apaixonado por elas, mas na realidade o astro de cinema nem sequer as encontrou. Pessoas assim são doentes da cabeça. Sensações íntimas ou intuições precisam ser apoiadas por provas, senão você simplesmente não pode confiar nelas.

As intuições são valiosas na ciência também, mas só para lhe dar ideias que você então testa, procurando provas. Um cientista pode ter um “pressentimento” sobre uma ideia que ele “sente” estar correta. Por si só, isso não é uma boa razão para acreditar nela. Mas pode ser uma razão para passar algum tempo fazendo experimentos, ou à busca de provas. Cientistas usam a intuição o tempo todo para ter ideias. Mas elas não valem nada até que sejam apoiadas por provas.

Eu prometi que voltaria à tradição, para examiná-la de outro modo. Quero explicar o que a tradição é tão importante para nós. Todos os animais são construídos (pelo processo chamado de evolução) para sobreviver no local em que seus semelhantes vivem. Leões são construídos para sobre sobreviver nas planícies da África. O lagostim é construído para sobreviver na água doce, enquanto as lagostas são adaptadas para a vida na água salgada. As pessoas também são animais, e somos construídos para viver bem no mundo cheio de… outras pessoas. A maioria de nós não caça para obter comida, como as lagostas ou os leões; nós a compramos de pessoas que, por sua vez, a compram de outras pessoas. Nós “nadamos” num “mar de pessoas”. Assim como um peixe precisa das brânquias para sobreviver na água, as pessoas precisam do cérebro que as torna capazes de se relacionarem umas com as outras. Assim como o mar está cheio de água salgada, o mar de pessoas está cheio de coisas difíceis de aprender. Como a linguagem.

Você fala inglês, mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada um de vocês fala a língua que lhes permite “nadar” no seu “mar de pessoas”. A linguagem é transmitida por tradição. Não há outra alternativa. Na Inglaterra, Pepe é um dog. Na Alemanha, ele é ein Hund. Nenhuma dessas palavras é mais correta ou verdadeira do que a outra. As duas foram transmitidas ao longo do tempo, só isso. Para serem boas em “nadar no seu mar de pessoas”, as crianças têm que aprender a língua de seu país, e muitas outras coisas sobre o seu povo; e isso só quer dizer que elas precisam absorver, como papel mata-borrão, uma enorme quantidade de informações sobre tradições (lembre que essas informações são aquelas passadas dos avós para pais e deste para filhos). O cérebro da criança tem que absorver informações sobre tradições. Não é de se esperar que a criança consiga separar a informação boa e útil, como as palavras de uma língua, das informações ruins e tolas como acreditar em bruxas, demônios e virgens imortais.

É uma pena — mas não deixa de ser assim — que, por serem sugadoras da informação sobre tradições, as crianças possam acreditar em qualquer coisa que os adultos lhes digam. Não importa se é falso ou verdadeiro, certo ou errado. Muito do que os adultos dizem é verdadeiro e baseado em provas, ou pelo menos sensato. Mas se parte do que é dito é falso, tolo ou até malvado, não há nada para impedir as crianças de acreditarem naquilo também. E quando as crianças crescerem o que farão? Bom, é claro que contarão as histórias para a próxima geração de crianças. Então, uma vez que uma ideia se torna uma crença arraigada — mesmo que seja completamente falsa e nunca tenha havido uma razão para acreditar nela —, pode durar para sempre.

Será isso o que aconteceu com as religiões? A crença de que há um Deus ou deuses, crença no Céu, crença em que Maria nunca morreu, que Jesus nunca possuiu um pai humano, que as rezas são respondidas, que vinho se torna sangue — nenhuma dessas crenças é apoiada por boas provas. E, no entanto, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez isso ocorra porque elas foram levadas a acreditar nessas coisas quando eram tão jovens que aceitavam qualquer coisa.

Milhões de pessoas acreditam em coisas bem diferentes, porque diferentes coisas lhes foram ensinadas quando eram crianças. Coisas diferentes são ditas para crianças muçulmanas e cristãs, e ambas crescem totalmente convencidas de que estão certas e as outras erradas. Mesmo entre cristãos, católicos romanos acreditam em coisas diferentes dos anglicanos ou de pessoas como os shakers [adeptos da Igreja milênio] ou quacres, mórmons ou Holy Rolers, e todos estão plenamente convencidos de que estão certos e os outros errados. Acreditam em coisas diferentes exatamente pela mesma razão que você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua certa para se falar. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estão corretas em seus próprios países, pois religiões diferentes afirmam que coisas opostas são verdadeiras. Maria não pode estar viva na Irlanda do Sul (um país católico) e morta na Irlanda do Norte (que é protestante).
O que podemos fazer sobre tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa, porque você só tem dez anos. Mas você pode experimentar o seguinte. Da próxima vez que alguém lhe disser algo que parecer importante, pense: “Será que isso é o tipo de coisa que as pessoas sabem por causa de provas? Ou será o tipo de coisa em que as pessoas acreditam só por causa de tradição, autoridade ou revelação?”. E, da próxima vez que alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não perguntar: “Que tipo de prova há para isso?”. E, se ela não puder lhe dar uma boa resposta, eu espero que você pense com muito carinho antes de acreditar em qualquer palavra daquilo que foi dito.
- De seu querido Papai










Sobre o autor: Richard Dawkins é evolucionista; docente no departamento de zoologia da Oxford University; membro do New College. Começou sua carreira de pesquisador na década de 60, como um aluno etólogo agraciado com o premio Nobel Nico Tinbergen, e desde então seu trabalho tem focalizado principalmente a evolução do comportamento. Desde 1976, quando seu primeiro livro, O Gene Egoísta, sintetizou tanto a substância como o espírito daquilo que hoje é chamado de revolução sócio-biológica, ele se tornou muito conhecido, tanto pela originalidade de suas ideias como pela clareza com que as expõe. Num livro posterior, O Fenótipo Estendido, e numa série de programas de televisão, expandiu a ideia do gene como unidade de seleção. A ideia foi aplicada a uma série de casos biológicos tão diversos quanto a relação entre hospedeiros e parasitas e a evolução da cooperação. Seu livro seguinte O Relojoeiro Cego, é amplamente lido, citado e um dos trabalhos intelectuais de nossa época realmente influente. Ele é também autor do recém-publicado O Rio Que Saía do Éden.



  • autor: Richard Dawkins










Fonte:

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Porque Roma caiu?



Porque Roma caiu ? 




 

O melhor meio de se compreender a queda de Roma é saltar a primeira metade
de qualquer livro sobre o assunto. Sim, o passado e as tendências de longo prazo
são importantes: alguns historiadores vão tão longe no passado à procura da
causa, porém, que parecem afirmar que Roma estava caminhando para uma
queda inevitável desde que foi fundada. Quando comecei a pesquisar o assunto
para este capítulo, li a literatura existente e, zelosamente, anotei observações
sobre Valeriano, Marco Aurélio e Diocleciano antes de perceber que essas
figuras antecediam a queda de pelo menos dois séculos. Isso é como encontrar a
causa do colapso da União Soviética em algo feito por Catarina, a Grande.


Vamos começar estabelecendo regras de bom senso:

Uma explicação apropriada deve se aplicar ao século V, em vez de o fazer ao
século I, de modo que paganismo, gladiadores e Nero tocando harpa estão
claramente fora de cogitação. Como o império deixara há muito tempo de ser
governado pela cidade epônima, qualquer causa que esteja ligada demais a
Roma, tal como o envenenamento por chumbo do suprimento de água da cidade
ou a malária nos pântanos da Itália meridional, também teria valor duvidoso. Da
mesma forma, dizer que o império era grande demais não é um argumento
muito convincente, porque ele não era maior no século V do que era no começo.
Há cem anos, estavam muito em voga as teorias raciais sobre o colapso de
Roma, de que a mestiçagem enfraqueceu a raça e assim por diante, mas isso é
simplesmente projetar as preocupações de uma época de volta para outra, no
passado. Hoje em dia você pode ouvir explicações baseadas em mudanças
climáticas, doenças tropicais ou asteroides assassinos, porque essas são as coisas
que nos preocupam.

Qualquer coisa tendo a ver com redução da fertilidade ou degradação geral da
classe governante é duvidosa, porque o Império Romano não era uma monarquia
no sentido estrito, que passava de pai para filho e deste para o neto. Era mais uma
ditadura militar, na qual o poder era transmitido de um imperador morto para um
parente com experiência ou um colega respeitado. E Roma também não era
especialmente elitista. Quando houve escassez de patrícios romanos para levar
adiante o espetáculo, gente comum das províncias assumiu o poder.

Como aconteceu com os dinossauros, que se transformaram em pássaros,
alguns alegam que Roma nunca realmente “caiu”; ela simplesmente se
transformou em outra coisa.

A metade oriental sobreviveu mais mil anos, como o Império Bizantino, e governantes que se intitulavam “Césares” existiram até o século XX, embora com o nome de “kaisers” e “tzares”. E não devemos esquecer que o mais poderoso líder espiritual do mundo ainda supervisiona de Roma suas centenas de milhões de seguidores.



Falando Sério: Porque Roma caiu?
 

Talvez você fique desapontado ao saber que a maioria dos historiadores evita
explicações grandiosas, cósmicas, para a queda de Roma, oferecendo, em vez
disso, causas específicas, quase insignificantes, ou uma de cada vez ou em
diversas combinações.

A mais popular das explicações culpa o fracasso da liderança. Roma nunca
desenvolveu um sistema suave de passar o império de um imperador para o
seguinte, o que desencadeava uma pequena guerra civil quase toda vez que
morria o governante. Os imperadores não tinham qualquer legitimidade, a não
ser terem comandado o maior exército, e generais ambiciosos tinham pouca
lealdade pessoal para com seu soberano. Assim, quando surgia a crise, Roma via
sentada no trono uma série desafortunada de usurpadores, crianças e pesos leves,
que tinham mais medo de seus próprios exércitos do que dos bárbaros.

Segundo, a cavalaria tornou-se o principal meio de combater, mas Roma fora
construída e mantida pela infantaria.c Como Roma reagiu a essas novas táticas
de cavalaria alistando mercenários, em vez de treinar os romanos nativos para
lutar dessa maneira, o exército foi ficando cada vez menos comprometido com a
sobrevivência do império. O exército romano sempre tivera certo oportunismo
egoísta que levou a incontáveis golpes e motins, mas como o exército era
essencialmente romano, os soldados hesitavam em deixar a porta aberta para
uma invasão bárbara sem resistência. Os mercenários hunos e godos não tinham
esses escrúpulos.

Terceiro, a transferência da capital principal para Constantinopla aumentou o
controle romano no Oriente, mas também marginalizou o do Ocidente. Os
exércitos colocados convenientemente para proteger a nova capital não eram de
muita utilidade para proteger o Ocidente. Durante o pico do poder romano, os
exércitos guarnecendo as extensas fronteiras fluviais ao longo dos rios da Europa
central eram mantidos por impostos cobrados da sofisticada economia urbana do
Mediterrâneo oriental. Quando o império foi dividido em duas partes, oriental e
ocidental, o Oriente herdou a galinha dos ovos de ouro, e uma fronteira mais
curta, enquanto o Ocidente ficou com as despesas de guarnecer uma extensa
fronteira, com recursos provenientes de uma economia mais primitiva.

No final, o Ocidente viu-se simplesmente sem meios de se defender.

Quarto, a conversão ao cristianismo (depois de 313) criou divisões internas e
alienou os tradicionalistas pagãos. Quando o cargo de sumo sacerdote foi
separado do cargo de imperador, isso diluiu o apoio popular ao governo. O
imperador perdeu metade de sua legitimidade. As pessoas ficaram menos
inclinadas a cultuar César, uma vez que ele não era mais um deus vivo. Isso
também ajuda a explicar por que a China, onde o imperador manteve seu status
divino, foi por fim reconstituída como uma nação unificada.



O Quarto General


Se um homem fosse chamado a fixar um período da história do mundo no
qual a condição da raça humana foi mais feliz e próspera, ele indicaria,
sem hesitação, o tempo decorrido da morte de Domiciano até a ascensão
de Cômodo (96-180 d.C.). A vasta extensão do Império Romano era
governada por um poder absoluto, sob a orientação da virtude e da
sabedoria. Os exércitos foram contidos pela firme, mas suave mão de
quatro imperadores sucessivos, cujo caráter e autoridade impunham
respeito involuntário. As formas da administração civil foram
cuidadosamente preservadas por Nerva, Trajano, Adriano e pelos
Antoninos, que apreciavam a imagem da liberdade, e ficavam contentes
em se considerarem como pessoas responsáveis pela administração das
leis. Esses príncipes mereceram a honra de restaurar a república, tendo os
romanos de seus dias sido capazes de gozar de uma liberdade racional.

– Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano


Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon, é amplamente
considerado o maior livro de história já escrito na língua inglesa. Isso aborrece os
modernos historiadores porque (1) hoje em dia eles sabem muito mais história do
que Gibbon sabia, e (2) eles têm inveja. Alguns têm criticado Gibbon por elogiar
tanto Roma, pois os romanos tinham guerras, analfabetismo, fome, doenças,
escravidão e reprimiam as mulheres. Bem, isso também acontecia na época em
que Gibbon escreveu (1776-88), de modo que “calem a boca”; ele tem razão.
Muitos campos da atividade humana não voltaram aos níveis da era romana
senão no século XIX.

O império criou uma paz real por toda uma enorme área, durante centenas de
anos. Meus cem mais sangrentos acontecimentos incluem sete conflitos ocorridos
na região do Mediterrâneo nos quatro séculos antes de Augusto, mas apenas um
durante os quatro séculos que se seguiram a seu governo.

Os historiadores costumavam considerar a queda de Roma uma profunda
falha geológica que dividia os mundos antigo e medieval, mas desde a década de
1970 os acadêmicos vêm experimentando um novo ponto de vista. Hoje em dia,
todo o período que vai de 200 a 800 d.C. é considerado um único período de
transição, chamado Antiguidade Tardia. Como parte disso, há também uma
tendência a diminuir a intensidade da violência associada às invasões bárbaras,
bem como a chamar esses povos de bárbaros. De fato, alguns estudiosos
argumentam que a queda do Império Romano do Ocidente, como um todo, é
enfatizada demais como um marco da história, e que as mudanças que varreram
a Europa foram mais decorrentes de imigrações pacíficas de tribos errantes, que
impuseram uma nova classe governante, mas que foram culturalmente
assimiladas em duas gerações.

Essa opinião é especialmente popular entre os ingleses, americanos e alemães,
pois eles são descendentes dos já mencionados bárbaros, que agora pareceriam
menos “bárbaros”. Num sentido mais geral, essa é apenas uma das mudanças de
direção que a historiografia, na qual antigos selvagens (vândalos, mongóis, zulus,
viquingues) são reabilitados, enquanto antigos exemplos de civilização (romanos,
britânicos) são denegridos. De vez em quando os estudiosos ficam cansados de
superestimar as épocas de ouro, e desenvolvem um renovado interesse pelas
antigas épocas das trevas. Isso acontece todo o tempo. Nunca é permanente, e
não devemos levar essa coisa muito a sério.

Sob esse novo paradigma, há também uma tendência a não fazer diferença
entre cada frente de tempestade que varreu uma civilização mediterrânea.
Sejam eles hunos, godos, ávaros, viquingues, magiares ou árabes, todos fazem
parte de uma mesma megatendência. Embora ajude a manter toda a matéria
dentro do contexto, isso obscurece o fato de que a queda de Roma no século V foi
um furacão.

A queda de Roma é, indiscutivelmente, o acontecimento geopolítico mais importante da história ocidental. Sem o esfacelamento do império, as populações romanizadas da Europa ocidental não teriam evoluído como identidades separadas. Em vez de franceses, espanhóis, italianos e portugueses, haveria apenas romanos nessas terras (falando algo muito semelhante ao italiano). 

Essa pátria neorromana poderia também ter incluído a Inglaterra, o norte da África e a margem sul do Danúbio, cujas populações romanizadas foram mais tarde
absorvidas, assimiladas e substituídas por invasores anglo-saxões, árabes e
eslavos. Imagine um único grupo étnico preenchendo todas as terras, desde
Liverpool até a Líbia, com 2 mil anos de história de unidade. Rivalizaria com a
China como o país mais antigo e mais populoso da Terra.
 



Livro Fonte:


 

sábado, 2 de agosto de 2014

Claude Monet


                                 

                                                                                     Claude Monet 




Oscar Claude Monet

                                                                                                                                                      (1840-1926)









                     
                                                                                                         Natureza morta com melão
                                                                                                                   
                                                                                                                      (1872)











                   
                                                                                           Madame Monet en costume japonais                                                                                                                   
                                                                                                                    (1875)








                                                                                                               Coin d'atelier                                                                                                                                   
                                                                                                                      (1861)










 Femme en blanc au jardin 

 (1867)








Impressão, nascer do sol

(1872)









Fonte: